A Pena

#30 Chegou flanando, silencioso, e pousou ao meu lado.

Olá.

Aqui, neste espaço de papo, mais vale a frase que a trama - se é que me entendem.

Assim, aproveitando o mote, olhem que maravilha:

“Alguém deve ter traído Joseph K., pois, numa bela manhã, ele foi preso sem ter feito nada de errado.”
– Franz Kafka, em “O Processo”.

Agora, digo eu: mais ou menos como nós, em sextas-feiras de pandemia, presos sem termos feito nada de errado.

Entre uma frase, uma página, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


A PENA

Chegou flanando, silencioso, e pousou ao meu lado. Pousado, ficou quieto um tempo. Depois, alternando os olhos, catou algumas migalhas, disse algumas coisas e ficou me encarando - até ir embora. Ainda sou capaz de sentir no rosto a lufada de ar com pó e de ouvir o barulho surdo de suas asas enormes. 

Acompanhei sua trajetória em direção aos céus até o momento em que ele, revirando o pescoço, voltou a me olhar. Levantei do banco, juntei a pena que caíra, baixei a cabeça pensando na desproporcionalidade entre o tamanho de seu corpo e a envergadura de suas asas e, atrasado, segui meu caminho. Pensava também no fato de ter ouvido um pássaro falar. 

Naquele tempo eu estava na escola, não era muito forte, e achei melhor não contar para ninguém o que havia acontecido. Um pouco mais tarde, depois da aula, também não contei nada em casa: meu pai e minha mãe não andavam se entendendo bem - depois piorou. 

Na universidade, estudei exatas e foi o que bastou: escondi a pena e decidi deixar a neve cobrir os telhados da vida. Gostei do resultado.

Entretanto, do silêncio que me impus sobre o pássaro, desenvolvi o que, aos olhos dos outros, parecem ser tiques nervosos: preciso sentar em um banco ao ar livre sempre que me sinto desafiado ou, menos social, olho insistentemente para o céu quando busco respostas para problemas mais complexos - como se elas estivessem por aí, voando.

Acredito que a vida seja assim. Não contamos algumas coisas, assumimos alguns tiques e quase todos, na família ou na empresa, gostam de você. 

Maria, por exemplo, não sabe de minhas experiências com relação a soluções vindas do céu, e meu casamento vai bem. Tivemos um filho saudável; ela perdeu o emprego mas não dá muita bola; quando chora diz que não é nada; parece divertir-se com meus olhares e até comprou um banco de madeira para colocar no jardim.

Só estou contando tudo isto por que ontem foi um dia especial:

– Pai. Muito estranho… hoje, voltando da escola, acho que ouvi uma espécie de pássaro falar. Pode ser?
– Pode – respondi, sem pensar.

A seguir, chorando, corri ao escritório, recuperei a pena e, ainda correndo, voltei para abraçar e beijar meu filho:

– Pode sim – repeti, sem afrouxar o abraço. – Guarde esta pena, é dele – falei ao seu ouvido.

Ao final do abraço, enquanto ele examinava a pena, concluí:

– Não conta nada pra ninguém. Nem pra sua mãe.

Vitor Bertini


Lembrou de alguém?

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