Bicho da Goiaba

#49 Perdoa sua mãe, ela não sabe o que diz.

Olá.

Hoje é sexta-feira de uma semana onde escrever foi um ato de descongelar os dedos - pelo menos aqui, no meio da floresta.

Entre pequenas gentilezas, frases, um bj e um queijo, boa leitura e bom fim de semana.


BICHO DA GOIABA

Quando Olita entrou no ônibus, todos sabiam que ela carregava uma sacola com goiabas.

– Hoje é pro santo ou pra patroa? – Perguntou seu Paulo, o motorista, ainda de pé ao lado de seu assento, esperando a hora de começar o itinerário.

– Você é patrão ou santo? – Respondeu Olita, fingindo seriedade, depois de ter depositado duas frutas nas mãos estendidas do motorista.

A goiabeira tinha dez anos de idade, cerca de seis metros de altura e - técnica de podas ensinada pelo Vôswaldo, oferecia goiabas ao longo de todo o ano. A novidade no cultivo, tarefa delegada à filha Juanita, era a utilização de saquinhos de papel na proteção dos frutos contra os parasitas.

– Desses de pipoca mesmo. Ensaque uma a uma! – Respondia orgulhosa, sempre que perguntada.

Os frutos da goiabeira, em regime de rodízio, tinham destino certo: casa, amigos e vizinhos, casa da patroa e Paróquia de São Benedito. Na patroa e na paróquia, viravam goiabada - era ela, e só ela, quem fazia.

Apesar de cochilar já nas primeiras sacolejadas do coletivo, Olita, orientada pelos sons, cheiros, ou tipo de conversas, nunca perdia seus eventuais pontos de descida: primeiro a paróquia; mais longe, o bairro da patroa. 

Naquele dia, mesmo de folga, se o trânsito não atrapalhasse, a goiabada seria feita na casa de dona Dora, o maior trajeto.

E foi assim, sacolejando, cochilando e sentindo o cheiro de suas goiabas que ela sonhou com seu Vôswaldo. No sonho, o homem que ensinou a neta a podar e cuidar de goiabeiras, sentado a seu lado no ônibus, mantinha estranhos diálogos com outros passageiros.

– Escova progressiva, escova progressiva… – comentava uma passageira.
– Não sei, não sei… – respondia o avô.
– Só se fala do frio. Parece ser o único assunto, além das vacinas – repetia alguém sentado no banco de trás, misturando as conversas.
– Vacinas? Vacinas? – Ecoava a voz do Vôswaldo, sem que ele precisasse falar.

Olita começou a despertar quando a fisionomia contrariada de seu avô voltou-se para uma mãe, recebem embarcada, que ralhava com sua filha:

– Não, não peça nada. Estas frutas, desta gente que não conhecemos, são sempre ruins e tem bichos.

No último momento do sonho, Vôswaldo levantou do banco:

– Lita, vamos embora. 
– Vô, nossas goiabas não tem bicho. Juanita cuida disso. – Insistia a neta no sonho, para um avô que não conseguia ouvir.

Acordada, aborrecida, Olita levantou, apertou o botão sinalizando que iria descer, escolheu uma goiaba e alcançou para a criança:

– Toma filha. Perdoa sua mãe, ela não sabe o que diz.

Olita desceu muito antes do ponto que queria. Desta vez, a goiabada seria feita na casa paroquial.

No caminho, a neta ainda ouvia Vôswaldo argumentando:

– Lita, bicho da goiaba nasce na goiaba, se alimenta de goiaba, vive na goiaba. Bicho da goiaba é goiaba!

Vitor Bertini


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