Bob Maldade

#83 Quando venta, as pessoas ficam loucas.

  
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Western Leone, 25 de fevereiro de 2022.

Um história bem contada não precisa se assemelhar à vida real. A própria vida tenta, com todas as suas forças, assemelhar-se a uma história bem contada.
– Isaac Babel

Esta é a epígrafe do meu livro Não me abandone - A saga de Bénya Krik, um cão de rua, contada pela família que ele adotou1.

Bénya Krik, o herói da história, e Odessa, uma das locações, são nomes com os quais, humildemente, prestei homenagens a Babel.

Isaac Babel nasceu em 1894, na cidade de Odessa, na Ucrânia, então parte do Império Russo. Foi preso pela polícia secreta (NKVD) em 15 de maio de 1939 e fuzilado em 27 de janeiro de 1940, na penitenciária de Lubyanka, em Moscou.

Entre histórias e brutais realidades, boa leitura e bom fim de semana.


BOB MALDADE

Quando não venta no Oeste as pessoas suam na testa e vestem camisas xadrez. 

Quando não venta, ao longe as miragens dançam, o silêncio é morno, as moscas zumbem e ninguém se mexe. 

Quando venta, as pessoas ficam loucas. Quando venta, venta muito e faz barulho de vento que venta e coisas que batem.

Quando venta, velhos vigiam, senhoras seguram as saias e jovens bebem. Quando bebem, trocam tiros ou deitam. Quando trocam tiros com Bob Maldade, morrem espalhafatosamente. Deitados. Eternamente. 

Menos para o pai, que toca harmônica e lembra para sempre.

Num dia sem vento, Bob, de volta ao Oeste, sentado, parado, por pura maldade, deu um tiro na mosca que zumbia:
– pááá – soou no silêncio morno.

A sombra do pai que não esquecia caminhou, foi ver o que era, viu Bob, e fez eco:
– pááá. 

Depois, enxugou a testa, fechou dois botões da camisa xadrez, levantou a cadeira e sentou. Sentado, mirando as miragens, sem tocar harmônica, ouvindo o zumbido das moscas, esperou o xerife chegar.

Vitor Bertini


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  • Western Leone é um parque na Andaluzia, Espanha, alusivo a uma ficção; Bob Maldade é uma ficção; os fatos que envolvem Isaac Babel são reais;

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TAKE A PEEK

Livre na cidade, Bénya não era rei, mas era dono de sua vida. E foi assim, livre, morador de rua e senhor de seu destino que ele viu chegar na vizinhança uma das mais fantásticas experiências que um cão pode viver: um parque de diversões.

A novidade era anunciada no bairro, a plenos pulmões, por um anão de três olhos que, com uma reverência, levava sua testa até o chão:

– Venham para Odessa! Venham ser livres! Venham conhecer suas próprias almas! Eu enxergo mais do que vocês! – gritava, fazendo os dois olhos de fora ficarem vesgos. E seguia anunciando:

– Um mundo de luzes, sons, cheiros, fantasmas, fantasias e sonhos; passado e futuro de graça! Só cobramos o presente! – dizia, agora sorrindo.

Não me abandone, Vitor Bertini, Esquina do Lombas

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