Café da manhã

#75 Bruna aguardava, com a sinistra paciência dos jacarés, uma alma inocente que lhe trouxesse café na cama.

  
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Olá.

Ano Novo - aprecie sem moderação.

Com faunas, frases, muitos goles, queijos e beijos, boa leitura e boas festas.


CAFÉ DA MANHÃ

Bruna aguardava, com a sinistra paciência dos jacarés, uma alma inocente que lhe trouxesse café na cama.

Lembrou que Marcelo provavelmente já havia saído para trabalhar e que ela havia dispensado os serviços da Constanza. Lembrou também que não existia nenhuma Constanza. Pelo menos não a seu serviço.

Resistiu. Os jacarés são assim, couro duro. É preciso honrar a natureza e esperar. Nenhum movimento em vão.

Cheiro de café é mais ou menos como uma sexta-feira: anuncia algo que nunca será, exatamente, como as expectativas geradas - mas é, em si, uma maravilha. Bruna não sabia onde havia lido isto. Sua memória era ótima. Faltava o café.

Olhando reto para a frente, aos pés da cama, sobre a herança da primeira viuvez da tia Norma - “filha, não é um banco, é um lindo récamier”, um amontoado de roupas brancas e sua bolsa mais vistosa.

Olhando para o lado, Bruna não via sombra, nem o menor sinal de movimento, na luz que vazava por baixo da porta do quarto. Melhor não mexer a cabeça.

Na penumbra do dormitório, a rua fazia mais silêncio do que o normal; o zumbido nos ouvidos aumentava de olhos fechados, os pés latejavam e o incômodo no pescoço revelou-se um colar.

Dona Nair, a vizinha de cima, foi ao banheiro. Lamentável. Protegendo-se, Bruna puxou o lençol à altura dos olhos.

Jacarés hibernam quatro meses. Bruna, sem café, com dores generalizadas e sem conseguir achar seu celular, começou a recordar o que já sabia: a festa de réveillon na casa da tia Norma.

Convidados, muitos convidados. Pessoas elegantes, bonitas, sinceras. Outras, só pessoas. Música, muita dança. Comida e bebida. Muita bebida.

Ano passado tia Norma havia cancelado, em nome da saúde de todos, as comemorações. Este ano, não. Este ano teve festa, e disseram que ia ser com o valor de duas. Muita gente - meu Deus, que coisa boa. Abraços e beijos. Muitos. 

Tudo ia bem demais, até a biblioteca já rodava, quando alguém gritou: 

– Aproveitem, no próximo réveillon pode ter isolamento social. De novo!
– Então, um com o valor de três! – Foi a resposta que se ouviu.

A festa ficou ainda melhor.

Jacaré tem vida longa e boa memória. Era o primeiro dia de janeiro do novo ano. Feriado.

No caminho da cozinha, Bruna achou seus sapatos e o celular já sem bateria. Lembrou que era solteira e que o Marcelo tinha viajado, para não voltar, havia três anos. Precisava café.

– Vai ser um longo ano.

Vitor Bertini.


Lembrou de alguém?

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  • O quê? Já é 22? Aqui, é ficção;

  • A próxima história, só no ano que vem. Dia 7, tá?

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.


FATIAS DE LIVRO

Um dia, pouco tempo atrás, escrevi:

Reza a lenda que o escritor americano Ernest Hemingway, Nobel de Literatura em 1954, ganhou um belo dinheiro de seus colegas de profissão apostando na possibilidade de contar uma história completa usando apenas seis palavras: “Vendem-se sapatos de bebê. Nunca usados.”

Profeflor, A História da Sexta, Vitor Bertini (clique para ler)

Vocês conhecem a Germana? Então:

nunca digam
desta mágoa
não beberei

Inscrição para uma mesa de bar, Eletrocardiodrama, Germana Zenettini, Laranja Original, 2016


Pois viver deveria ser - até o último pensamento e derradeiro olhar - transformar-se.

– Lya Luft (15 setembro 1938 – 30 dezembro 2021)