Companheiro de Viagem

#54 Está comigo, está com Deus.

Olá.

Hoje é uma sexta-feira de mil e treze palavras. Chega.

Entre redes sociais, sorrisos, goles e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


COMPANHEIRO DE VIAGEM

Incomodado com o sinal fraco do celular, sozinho na caminhonete estacionada na garagem do edifício em que morava havia um ano, Celso vasculhava as redes sociais quando Olga, sua mulher, mandou uma mensagem de texto:

– Foi tudo bem? Sucesso?
– Tudo certo. Saio em minutos.
– No caminho você passa em uma farmácia? Cólicas. 
– Acho que não rola.
– ??
– Exausto e com fome. Bj.

O silêncio de Olga - e das redes, fez com que Celso mudasse de ideia.

– O remédio de sempre?
– Sim. Amo você.
– Vou demorar um pouco mais, certo?
– Ok. Bjs.
– Bj.

Na saída da garagem, encarando a câmera de segurança, Celso abanou para o porteiro da noite.

Marcelo, o provável porteiro, era uma figura interessante. Logo na primeira noite do apartamento novo, chegando a pé de um jantar comemorativo em um restaurante próximo, o casal encontrou a porta do prédio entreaberta, com o porteiro fazendo mesuras:

– Muito bem-vindos. Meu nome é Marcelo. Sou o porteiro da noite.
– Prazer, Marcelo. Obrigado pelas boas-vindas.

Depois, já no hall dos elevadores, enquanto Olga conferia as reações das amigas às fotos do restaurante e ao registro eufórico do novo apartamento, na chegada do elevador, segurando a porta com uma mão e apertando o botão do sétimo andar com a outra, o porteiro não se fez de rogado:

– A senhora se importa de me dizer que aplicativo é esse?
– Esse é o Instagram – respondeu Olga, sorrindo,  surpreendida pela pergunta.
– Só tenho Face – seguiu Marcelo, sem largar a porta – a senhora usa o Face?
– Tenho, mas quase não uso – devolveu Olga, olhando de baixo para cima no momento em que juntava, junto com o marido, a echarpe que havia caído.

Se Celso estava cansado e ansioso para chegar em casa - afinal, era a primeira noite no novo endereço, fazia da habilidade em contornar situações difíceis sua marca e poderosa ferramenta de sobrevivência.

– Querida, suba na frente. Vou ensinar nosso amigo a baixar o Instagram. – Falou, saindo do elevador.

Naquela noite, Celso e Marcelo viraram amigos no Face. Celso postava políticas identitárias; Marcelo, queijos e vinhos baratos.

No rápido retorno da farmácia, outra vez o estacionamento e a volta ao celular - mesmo de sinal fraco. 

A palestra era inovadora e a repercussão tinha que ser grande. Ansioso, aflito pelo tempo na garagem e pela absoluta ausência de menções nas redes à sua apresentação, Celso decidiu que o som não fora o adequado, sua secretária não disparara todas as comunicações que deveria, e a platéia, afinal, não era lá estas coisas.

Ainda sentado em sua 4 x 4, no escuro, uma última navegada nas redes causou um frio na barriga e trouxe uma certeza: “não me entenderam”.

Abatido, guardou o celular, pegou a sacolinha da farmácia, deixou suas anotações espalhadas no banco do carona, fechou a porta da caminhonete, agitou os braços para acender as luzes da garagem e foi para o elevador. No caminho, acionou o alarme e abanou para o porteiro da noite.

 Entrou no elevador, olhou para a câmera, sorriu sem saber para quem e apertou o botão com o número sete.

A seguir, no fechamento da porta, conferiu o conteúdo da sacola e baixou o olhar. No chão, no canto oposto do elevador que subia, um par de olhos e o corpo retesado de um camundongo, pronto para começar a correr e pular, .

Os gritos e pulos que aconteceram não combinavam com a imagem que o marido de Olga cuidava com tanto esmero. Vinte segundos depois, quando o elevador parou e a porta abriu, Celso correu primeiro. O camundongo ficou. 

Decidido a só entrar em casa quando o suor secasse, Celso mudou de opinião ao ouvir tocar o interfone da portaria.

– Alô, Dr. Celso? Marcelo, da portaria. Está tudo bem com o senhor?
– Tudo certo, por quê?
– Acho que ouvi uns gritos e barulhos vindos do elevador. Está tudo certo, né?
– Obrigado. Está tudo certinho sim, sem galho.
– Estranho… mas, ok. O doutor sabe, né? Qualquer coisa, é só chamar.

O palestrante da noite ainda estava recompondo-se quando Olga apareceu.

– O que era?
– Nada. Tome seu remédio. Como estão as cólicas?
– Como assim, nada. Era da portaria, o que o Marcelo queria?
– Nada, coisas de Instagram, sei lá… 
– Este cara não sai das redes. Agora deu para postar vídeos.

No meio daquela noite, Celso acordou, deu um pulo e sentou na cama. Postar vídeos! E se o porteiro olhasse as imagens da câmera do elevador? 

Celso passou o resto da noite em claro - e o dia seguinte angustiado, pensando.

Quando Marcelo chegou para trabalhar, Dr. Celso estava sentado na sala de espera, no hall do prédio, segurando uma sacola parda.

– Boa noite, doutor.
– Boa noite, Marcelo. Você tem um minutinho?
– Claro, doutor. Dona Olga vai bem?
– Tudo certo, tudo bem.
– No que eu posso ajudar?
– Nada muito importante. É só uma curiosidade. O que é feito com as cópias das imagens captadas pelas câmeras de segurança do prédio? Você sabe?
– Olha… antigamente elas ficavam gravadas em discos. Agora, elas ficam armazenadas no HD do computador. Só são acessadas em caso de necessidade. 
– E quem tem acesso a elas?
– Bem, o pessoal da administração é quem tem a senha. Alguns vigias, às vezes, também tem.
– E aqui, no nosso prédio, quem tem?
– O doutor sabe que eu gosto um pouco destas coisas de tecnologia, não é?
– Você tem acesso? Você tem as senhas?
– Até tenho. Mas acho que as imagens dos últimos dias enfrentaram algum problema de software.
– De software? Software? – Repetiu Celso, enquanto olhava para o rosto sereno do porteiro. – Software, é?
– Isso, software.
– E como eu posso ter certeza disso?
– Doutor, está comigo, está com Deus. Fique tranquilo.

Celso baixou a cabeça, pegou a sacola com vinhos e queijos e alcançou para o porteiro.

– Mês que vem tem mais.
– Não se incomode doutor. Está comigo, está com Deus – repetiu o porteiro da noite. O interessante Marcelo.

Foi só no fim de semana seguinte que dona Clarice, tia de Marcelo, recebeu a visita do sobrinho em seu sítio.

– Ô meu filho, não vai me dizer que você veio caçar outro camundongo.

Vitor Bertini


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