Cuco

A História da Sexta #11

CUCO

No meio do campus universitário, o centro do mundo. No centro do mundo, uma cafeteria.

A cafeteria da faculdade de arquitetura era ponto obrigatório para estudantes de todos os cursos: pela suposta qualidade do café - única que dizia ter grãos de origem, pela temperatura da cerveja, pelas conversas interdisciplinares e, forçado reconhecer, pela beleza das alunas.

– Todas as tribos passam por aqui – explicava Antonela, Antonela Matteo, enquanto apresentava as dependências da escola para uma caloura, filha de amigos da família. Depois, à tardinha, em horário de casa cheia, devidamente instalada com duas colegas em uma das mesas, ainda com a novata à tiracolo, sofisticou o discurso:

– Acolher bem é reconhecer o outro… e a melhor arquitetura faz isto! – Ensinou, elevando o tom de voz e exemplificando, com um giro de queixo empinado, o que queria dizer.

Na mesa ao lado, um grupo de estudantes de geologia misturava cervejas com placas tectônicas. Entre eles, Eduardo. Formando, veterano em ambientes bem mais rústicos, Eduardo ouviu embevecido os conceitos sobre a melhor arquitetura, e se encantou pelo queixo empinado.

Foi o aplauso das amigas aos ensinamentos de Antonela quem deu a deixa que Eduardo precisava: aplaudiu junto, arrastou a cadeira até a mesa das arquitetas e fez uma provocação qualquer sobre estética e tempos geológicos.

Um ano de trocas conceituais, cervejas em qualquer temperatura e risadas com aplausos, resultou em uma cerimônia simples, repleta de amigos, na orgulhosa casa reformada - o primeiro projeto de Antonela.

– Somos cosmopolitas e acolhemos o outro – declarou a noiva, toda sorrisos, festejando a presença de todos.

Anos depois, triste, com voz frágil, Antonela repetia a frase:

– Somos cosmopolitas e devemos acolher o outro – falou, iniciando as tratativas sobre a separação.
– Espero que consigamos levar isto até o fim sem brigar – devolveu Eduardo, olhando para o chão.
– Por favor… – murmurou a esposa, indo buscar dois copos d’água.

Casal de poucas posses e muitas lembranças, as divisões seguiram a harmonia buscada pela arquitetura sob o complacente silêncio de tempos geológicos:

– Fica bem assim pra você? – Perguntou a arquiteta, enxugando uma lágrima, depois da leitura de um detalhado rol de bens e seus respectivos destinos.
– Fica, fica sim – murmurou o geólogo, ainda cabisbaixo. – Você só esqueceu de incluir o relógio da sala. Mas, sem galho, foi mamãe quem nos deu; eu fico com o cuco – ponderou Eduardo.
– Eduardo, o cuco está no nicho projetado especialmente para ele. Sem o cuco, aquele nicho não faz sentido. Não interessa quem nos deu… 
–  O cuco era de mamãe; eu levo o cuco.
Eduardo, o cuco é o centro estético do meu projeto!
Antonela, se é por isso, o cuco marca a porra do tempo geológico da minha mãe! – gritou Eduardo, batendo os calcanhares e a porta.

As duas petições de Ação de Divórcio Litigioso foram entregues no Foro da Cidade no mesmo dia, quase na mesma hora.