Dezesseis Dobras

#38 João aprendeu a fazer aviõezinhos de papel com o pai.

Olá.

Hoje é sexta-feira.

Durante a semana, recebi várias ligações perguntando se podiam deixar recados para o Juvenal.
Ontem, outra chamada:
– Alô? Aqui é o Juvenal. Tem algum recado pra mim?

Entre um nonsense, duas asas, uma página, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


DEZESSEIS DOBRAS

João aprendeu a fazer aviõezinhos de papel com o pai. Da mãe herdou a simplicidade, o olhar sereno e algum ceticismo.

Denise sempre quis aprender a tocar piano e já foi de ir à igreja. Hoje, coleciona sapatos, tem certezas, é sócia em um promissor escritório de advocacia e diz não ter tempo pra nada.

João e Denise vivem juntos há três anos. João quer casar, Denise diz que também quer e chama o João de marido.

– Acho isso fascinante. – Comentou o pai, vendo o aviãozinho, feito com uma folha de papel, planar durante inacreditáveis quinze segundos.

Ao seu lado, olhos fixos no milagre, o menino João. 

– Pai, faz um pra mim? – Gritou, enquanto corria para buscar o avião.
– Este é seu, meu filho. Mas, faço outro. Venha cá! Olhe como é.

Papel retirado de uma pilha de folhas sobre a mesa de trabalho, mãos e dedos firmes, dezesseis dobras, dois cortes nas asas, e a esquadrilha estava formada. 

– Pai, o papel precisa ser especial?
– Não, meu filho; não precisa. Especial será todo dia que você fizer eles voarem – respondeu o pai, alcançando o brinquedo. – Vai, lança este. Segura assim, embaixo, na parte mais pesada. Agora, braço pra trás e olhar pra frente. Isso. Assim. Vai!

Naquela noite, Denise chegou em casa mais tarde e mais séria do que de costume. Entrou calada e largou sobre a mesa, a bolsa, dois envelopes e uma sacola de compras. Tirou os sapatos, buscou um vinho e chamou o marido.

– João Vitor! – Comandou, já servindo os cálices.
– Ôpa, vamos comemorar mais um par? – Provocou João, bem-humorado, saindo do escritório ainda com os óculos de leitura sobre o nariz e o que parecia um relatório nas mãos. Olhou de passagem para a mesa, e fingiu não ter ouvido seu nome composto - sempre sinal de coisa séria.
– Na verdade, não. Mas, não me importo nem um pouco de apresentar a novidade. Até porque o senhor vai estar presente na estréia – devolveu Denise, largando o cálice e indo calçar o novo par de sapatos.

Voltou em passos de desfile, carregando os dois envelopes.

– Gostou? – Perguntou retoricamente, ordenando as mãos e fazendo uma pausa dramática. – Senhor João Vitor, aqui, neste envelope, o senhor encontrará a relação de documentos necessários e o agendamento proposto para a estréia dos novos sapatos. Olhe com calma e veja se a data de seu casamento está de acordo com as possibilidades de sua agenda.

Diante do espantado silêncio do marido, futuro marido, e antes que ele pudesse desviar o olhar, ela seguiu:

– E este aqui, por favor, examine com cuidado enquanto vou para o banho. É o resultado do meu HCG  – falou baixinho, fugindo para a suíte.

Quando Denise voltou do banho, João Vitor, o futuro marido e pai, sentado no sofá, com os pés descalçados apoiados na mesa de centro, sorria, bebia vinho e lançava aviões de papel no ar.

– Acho isso fascinante – concluiu, antes de receber a esposa no colo.

Vitor Bertini


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  • Sexta-feira, dia 23, tem mais.


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