Dias de Rua

#33 A novidade era anunciada no bairro, a plenos pulmões, por um anão de três olhos

Olá.

Atendendo a pedidos de leitores, às ordens de uma agenda complicada e à frase do fim do texto que diz da “visão mágica da esperança sempre voltando para quem faz do tempo seu aliado”, segue, ainda uma vez - como nos antigos folhetins, mais um capítulo, o segundo, do livro ”Não me Abandone - A Saga de Bénya Krik, um Cão de Rua, Contada Pela Família Que Ele Adotou”.

Entre um cão, um texto, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


DIAS DE RUA

Quando Bénya ainda não era Bénya e o tempo passava devagar, a vida não tinha hierarquia e liberdade não precisava ser definida.

Tempo depois, abusando do tempo, o concreto escondeu a lua, a comida passou a ser buscada no lixo, e a sobrevivência, essa eterna madrasta, deixava cicatrizes na alma. Entretanto, e lá vem o tempo de novo, as luzes da cidade são sereias de cantos invencíveis.

Livre na cidade, Bénya não era rei, mas era dono de sua vida. E foi assim, livre, morador de rua e senhor do seu destino que ele viu chegar na vizinhança uma das mais fantásticas experiências que um cão pode viver: um parque de diversões.

A novidade era anunciada no bairro, a plenos pulmões, por um anão de três olhos que, com uma reverência, levava sua testa até o chão:

– Venham para Odessa! Venham ser livres! Venham conhecer suas próprias almas! Eu enxergo mais do que vocês! – gritava, fazendo os dois olhos de fora ficarem vesgos. E seguia anunciando:

– Um mundo de luzes, sons, cheiros, fantasmas, fantasias e sonhos; passado e futuro de graça! Só cobramos o presente! – dizia, agora sorrindo.

Bénya, livre como sugeria o anão, entrou no parque e foi tomado por uma vertigem de prazeres. Sentidos aguçados, rodopiava na ansiedade de querer tudo, e tudo na mesma hora. Todavia, como advertira o três olhos, a alma tem seus segredos, e foi quando Bénya enxergou o mais atraente carrossel do mundo que esse mesmo mundo começou a girar. Seu olfato perdeu a sensibilidade, a audição ficou longínqua, tudo começou a ficar escuro, e o medo, esse terrível conselheiro, fez parecer que a vida ia embora.

Na escuridão, fraco, sua memória buscou naquele tempo em que o concreto não havia escondido a lua um brilho como esperança. Buscava uma pequenina estrela guia como aliada contra o desconhecido.

E foi com o olhar fixo que Bénya viu o brilho crescer, seu equilíbrio voltar e a escuridão dar lugar à mais linda estrela dourada já vista, na testa de um cavalo azul. Porte inigualável, visão mágica da esperança sempre voltando para quem faz do tempo seu aliado, o cavalo azul trazia forças para Bénya continuar vivo, livre e feliz.

Bénya desejou que todos buscassem uma estrela guia.

Bénya desejou que todos encontrassem um cavalo azul.

Bénya Krik ainda não era rei.

Vitor Bertini


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