Dois Novo Oeste

#44 = #3 + #21 Suas observações são muito bem-vindas.

Olá.

Hoje é sexta-feira, aquele dia da semana que virou verbo intransitivo. Sextar.

Em Não me Abandone, livro de autoria do locutor que vos fala, no capítulo entitulado “Dias de Rua”, está escrito:

A novidade era anunciada no bairro, a plenos pulmões, por um anão de três olhos que, com uma reverência, levava sua testa até o chão.

Muito bem. Agora, sem o auxílio do personagem, mas com idêntica reverência, digo eu:

– Temos novidades! Em teste, pra ver como funciona, temos espaço para comentários!

Suas observações são muito bem-vindas e ficarão junto com a publicação de hoje, lá na página destas histórias curtas.

Entre expectativas, livros, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


ONDE O SOL SE PÕE

Novo Oeste é minha cidade natal. Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha o melhor muro do mundo para sentar em cima, pensar na vida e comer bergamotas.

Eu não sabia onde ficava o oeste, pouco sabia da vida, mas sabia muito bem onde ficava aquele muro alto, largo e que, à tardinha, recebia uma sombra perfeita. Sentado ali eu via tudo: a prefeitura, a igreja, o clube, a delegacia e, espichando um pouco o pescoço, a rodoviária e a bergamoteira.

Certo fim de tarde, inclinando o corpo para apanhar a mais amarela das bergamotas, vi Iracyna fechando a rodoviária. Sempre de jeans, sapato baixo e blusa preta, Iracyna, gerente da rodoviária, era uma mulher discreta e de olhar severo. Sorriso mesmo, só vendendo passagens.

Foi assim, na rua já deserta, empoleirado no muro com uma bergamota na mão, que vi Iracyna se aproximar acompanhando uma moça que acabara de chegar à cidade.

– Para que lado será que fica o oeste? – perguntou a visitante levantando o cabelo e insinuando a nuca.

Iracyna parou, acarinhou o rosto da forasteira, encostou-a no muro, deu-lhe um beijo na boca e, colocando a mão por baixo de sua blusa, afirmou:

– O oeste é onde o sol se põe e para onde corre minha mão.

Nunca esqueci onde fica o oeste.

Vitor Bertini


Compartilhar é o “novo abraço”:

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NOVO OESTE, MUITO PRAZER

Novo Oeste é minha cidade natal. Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha, na minha juventude, o melhor muro do mundo para sentar em cima, pensar na vida e comer bergamotas. Tudo isso já foi dito.

O que ainda não foi dito, é que em Novo Oeste existiam dois partidos políticos, duas igrejas, dois clubes sociais, duas rádios, três cemitérios e dois loucos. Além disso, duas opiniões irreconciliáveis. Sempre. Em tudo.

Manoelzinho, o primeiro louco, caminhava inclinado para a frente, olhava para o chão e xingava as formigas. Dormia na rodoviária - sob as bençãos da gerente Iracyna, e ninguém sabia como alimentava-se. De tempos em tempos, junto com um upa, inclinava-se para trás e, parado, olhando pra cima, xingava as nuvens.

O segundo louco atendia por Pedro Cabeça. Pedro Cabeça, dizia-se, morava no mato, na subida do Morro da Cruz; carregava um livro, falava sozinho e, quando podia, jogava pedra nos cachorros de rua.

Certo fim de tarde, naquela hora do dia em que as cidades começam a trocar de roupa, caminhavam na mesma calçada, em sentidos contrários, Manoelzinho e Pedro Cabeça. O notável encontro, quem viu não esquece, fez com que Manoelzinho dissesse upa e, parado na frente do conterrâneo, começasse a gritar contra as nuvens escuras do entardecer. Pedro Cabeça, espantado, olhou pra cima e, na falta de cachorros, começou a jogar pedras em direção aos céus. Quando as pedras começaram a cair, cada um correu para o lado de onde viera.

Alguns dias depois, Manoelzinho morreu.

O terceiro cemitério, o municipal - com capim crescido, sem conservação e sem flores, era reservado para os pobres, para os sem voz e para os sem lado. Lá, Manoelzinho foi velado durante trinta minutos, e enterrado.

No velório, sem saber que morava em Novo Oeste, sozinho, compareceu Pedro Cabeça. Chegou, fez uma reverência, colocou seu livro sobre o caixão e acompanhou, calado, o trajeto até a cova rasa.

Ao se afastar, sem conseguir xingar nada, Pedro Cabeça caminhou inclinado para a frente. No portão do cemitério, surpreso, fez um upa e olhou para o céu. Chovia em Novo Oeste.

Vitor Bertini


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