Dona Baltasar

#34 Marcelo usava suspensórios, falava pouco e era incapaz de um gesto brusco.

Olá.

Um dos mais famosos livros sobre escrever é o The Elements of Style, de William Strunk e E. B. White. A regra 17, no capítulo Princípios de Composição, ensina: “omita as palavras desnecessárias”.
Abaixo, o que temos pra hoje.
Ficou bem?

Entre palavras omitidas, uma página, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


DONA BALTASAR

Terceira geração a comandar os negócios da família, Marcelo usava suspensórios, falava pouco e era incapaz de um gesto brusco. Nem sempre foi assim. 

Disputar e assumir a presidência da empresa, pagar as dívidas e “recuperar o barco navegando” exigiam outros atributos.

Vem daquela época a lembrança que assombra, até hoje, as reuniões na companhia:

Sono un carnivoro! – gritou e repetiu Marcelo, enquanto tirava o cinto das calças e açoitava a mesa, encerrando uma reunião de apresentação de resultados ruins.

Foi Dona Baltasar, a mais antiga entre as secretárias, quem teve a coragem de entrar na sala de quem parecia alucinado:

– Expomo-nos mais num único instante de fúria do que em muitas horas de indiferença, meu filho – disse, enquanto alcançava um copo com água para o neto do fundador da companhia.
– O que a senhora faz? – Perguntou Marcelo, ainda sem o cinto.
– Leio, meu filho. Leio.
– E na empresa?
– Ajudo meninos a colocarem cintos – afirmou, antes de aceitar o convite para ser sua secretária.

Os bons resultados da empresa, o tempo, os ensinamentos de Dona Baltasar e, aparentemente, o segundo casamento, foram os principais responsáveis pelas mudanças no comportamento de Marcelo. 

– Deixe a neve cobrir os telhados – ensinou a secretária certa vez, quando a impulsividade de Marcelo ameaçava ressurgir.
– Talvez você esteja certa. Vou aceitar a sugestão e vou descansar uns dias. Viajar. Vou visitar Florença, Dona Baltasar. Pode providenciar meus documentos – declarou, como se a secretária não soubesse da prospecção de clientes italianos.

Marcelo voltou da viagem renovado: trouxe clientes, os primeiros suspensórios e uma nova esposa, a Giulietta.

Um ano depois, feliz, durante uma pausa para um café, Marcelo relembra com sua secretária a reunião que os aproximou:

– Dona Baltasar, sabe, novamente sono un carnivoro! A Giulietta aprendeu a fazer uma Bisteca à Fiorentina fantástica. Até achou um açougue perto de casa!
– Como diz o autor de Não me Abandone, “açougueiro vende carne e entrega cumplicidade”, meu presidente.
– Gostei da frase – afirmou Marcelo, e continuou:
– Aliás, hoje ela não vai poder ir e pediu para eu passar lá. Vou conhecer nosso fornecedor – encerrou.

A visita de Marcelo ao açougue durou o tempo suficiente para apanhar o embrulho, ser informado que o açougueiro havia morado em Florença, ouvi-lo declamar dois versos da Divina Comédia, e, na saída, reparar, no canto do balcão, uma pilha de livros. Sobre todos eles, aberto e com capa e sobrecapa voltadas para cima, Para Viver um Grande Amor, Vinícius de Moraes.

– Dona Baltasar, me fale dos livros do Vinícius – disse uma voz displicente, vindo da sala presidencial.
– É o autor de alguns dos mais sedutores versos de amor escritos em português – respondeu a secretária, espichando o pescoço em direção à origem da voz.
– Vai começar a ler, meu presidente?
– Estou pensando.

Naquele dia, como sempre, a bisteca estava ótima. Marcelo só ficou enjoado e um pouco tonto depois de ouvir a pergunta da esposa:

– Francesco é um querido. Ele declamou pra você também?

Vitor Bertini


Lembrou de alguém?

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