Dona Nair

#57 Mãe, chama a polícia.

  
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Entre inspirações difusas, leituras, goles e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


DONA NAIR

A novidade eram as pedras e as pauladas distribuídas entre as casas da vizinhança. A gritaria não era novidade.

– Mãe, chama a polícia.
– Apaga a luz e vai ver se a porta dos fundos está trancada, minha filha.
– Mãe…
– Eu já disse que não queria ver você falando com este rapaz.
– Não falei com ninguém. De onde você tirou isso?
– Ele gritou seu nome.
– Mãe, chama a polícia. Ele grita qualquer coisa.
– Eu não vou chamar a polícia, sou amiga da Nair.

Moravam no Bairro do Céu, uma região da cidade com casas de família, minúsculos armazéns e gente. Muita gente.

Bairro do Céu não nasceu bairro. Nasceu como um conjunto de casas de madeira - com nome de autoridade esquecida, que ficavam depois do fim da linha 70, construídas como alternativa para os desalojados do Mangue do Sapinho, por alegadas razões de saúde pública.

Recém-casada, Dona Nair morava no Mangue. No anúncio da remoção, brincando com as promessas que acompanhavam a notícia da mudança compulsória de todos, dizia que ia passar sua segunda lua-de-mel, agora no céu. Anos mais tarde, na criação legal do bairro, o nome foi oficializado.

Casa nova, tempos de sol. Todos os dias, ela cuidava das rosas e esperava o marido chegar. Na vida que corre - às vezes chovia, chegou Pedro, chegou Maria, e o marido começou a tardar. Sozinha com dois filhos, nada de rosas. Nair foi trabalhar.

Na noite das pedras, Pedro apareceu à tardinha, beijou a mãe e perguntou pela irmã. Sentou, tomou café, comeu bolo, murmurou respostas, deitou no sofá e dormiu. 

De pé, encostada na porta entre a sala e a cozinha, olhando o filho de braços magros e roupas que não pareciam suas, Nair chorou e rezou em silêncio.

– “Pai, perdoa meu menino. Pai, ajuda meu menino.”

Quando Pedro acordou, pediu dinheiro três vezes. Sem receber resposta, aos gritos para que a mãe parasse de chorar, socou a parede e saiu de casa.

O surto das pauladas só aconteceu mais tarde, quando Pedro retornou. Durou até que chegasse a polícia.

Tudo isto faz dois anos.

Hoje, Dona Nair ainda trabalha e, à tardinha, já em casa, cuida das rosas:

– Elas precisam estar bonitas para quando o Pedro voltar.

Vitor Bertini

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Olá.

Hoje é sexta e este papo, aqui no fim, abaixo da história, tem lá suas razões.

A primeira, é para demonstrar que minhas convicções não valem um tostão furado: sempre afirmo que um escritor (ora, ora) não deve explicar seus textos. Explicá-los seria uma espécie de traição à própria literatura.

A segunda, é que gosto do parágrafo que segue e não queria, de forma alguma, influenciar na leitura de ninguém.

A quebra em parágrafos e a pontuação devem ser feitas adequadamente, mas apenas pelo efeito sobre o leitor. Um conjunto de regras mortas não é bom. Um novo parágrafo é uma coisa maravilhosa. Ele lhe permite mudar tranquilamente de ritmo, e pode ser como um relâmpago que mostra a mesma paisagem sob um aspecto diferente.

Isaac Babel, em “Para Ler Como um Escritor”, Francine Prose, Zahar, 2008.


  • Você conhece a Dona Nair? É outra. Esta, eu inventei;

  • A ilustração da história de hoje é do pintor, ilustrador e designer gráfico checo, Alphonse Mucha (24/07/1860 - 14/07/1939);

  • Sexta, dia 03 de setembro, tem mais;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.