Duas Mudanças

#45 Eduardo e Maristela estavam casados havia sete anos. Moravam juntos há nove.

Olá.

Hoje é sexta-feira, dia 4 de junho do ano de 2021. Mas, cá pra nós, não é bem sexta-feira. É uma espécie de sexta light. Vocês sabem do que estou falando.

Aproveitem.

Entre um descanso, páginas, um bj e um queijo, boa leitura e bom fim de semana.


DUAS MUDANÇAS

– Duas mudanças equivalem a um incêndio – desabafou o marido, empurrando com o pé uma caixa de papelão cheia de sapatos. 

Maristela, a esposa, sentada no chão, rodeada de roupas e mais sapatos, ouviu a frase em silêncio e, sem levantar os olhos, viu as pernas do Eduardo - ainda resmungando alguma coisa, desviarem de uma pilha de blusões e saírem do quarto em direção à sala.

– Vou começar a separar as minhas coisas aqui na sala. Quando você terminar de embalar seu roupeiro, você me avisa – gritou Eduardo, traindo sua irritação.
– Amor, estou encaixotando nosso roupeiro e acho que você deveria me ajudar. Mas, se arrumar suas coisinhas vai lhe fazer bem, fique à vontade. – Devolveu Maristela, que, falando baixando, continuou:
– E se você continuar gritando e chutando caixas, dona Marisa, aqui do lado, em dez minutos, liga para a portaria.
– Eu não chutei caixa nenhuma, tirei ela do meu caminho. E também não gritei – gritou Eduardo. 

Eduardo e Maristela estavam casados havia sete anos. Moravam juntos há nove. 

Nos primeiros dois anos, quase uma paixão inconsequente, moraram no apartamento de Maristela. Na verdade, no quarto e sala do “querido sogro”, como dizia Eduardo, e onde não pagavam aluguel. Foi um período de pia cheia, bar todas as noites, muito sexo e muito riso.

Depois, na formalização do casamento, a primeira mudança de endereço. 

– Não precisamos de muito espaço, apenas o suficiente para plantarmos nossos amigos, nosso discos e livros, e pouca coisa mais – dizia Maristela, brincando com a letra da música.

Entretanto, sete anos de casa e casamento trouxeram, além da inevitável rotina e do aumento do número de discos e livros, uma enorme quantidade do que Maristela chamava de coisinhas e sobre as quais Eduardo, surpreso, dizia não ter a menor noção. 

Agora, preparando a segunda mudança - afinal, onde colocar cinquenta e duas polegadas de pixels coloridos? estas coisinhas brotavam dos lugares mais inesperados e ocupavam, literalmente, todos os espaços do apartamento.

Foi na sala, separando lembranças, que Eduardo surpreendeu-se com uma edição manuseada do livro Todo Amor, do Vinícius, que ele não lembrava de ter adquirido ou sequer visto, caída atrás de uma gaveta. Na folha de rosto, uma tórrida declaração de amor dedicada “à paixão da minha vida”, assinada com um B e datada de sete anos atrás.

O barulho que Eduardo vinha provocativamente fazendo ao mexer nas gavetas, empilhar o que quer que fosse ou simplesmente separar e rasgar papéis velhos, cessou. No silêncio que se seguiu, o tempo de ler a dedicatória algumas vezes, sentir a irritação ser substituída pelo gosto amargo do ciúme e largar o livro no mais visível espaço livre que encontrou: de pé, no aparador, encostado no porta-retratos com a foto do casal.

Inseguro, ainda tonto, precisando de tempo para pensar e recuperar-se, o marido da Maristela buscou refúgio:

– Vou para o banho – falou, usando um inédito tom de voz.

Na saída do banho, metade da sala estava organizada e o livro, o maldito livro, estava exatamente onde ele o havia deixado.

– Amor, bateu a fome. Vamos pedir um delivery? – Perguntou Maristela, antes que ele conseguisse dizer alguma coisa.
– Estou sem fome. Peça o que você quiser – respondeu Eduardo.
– Hoje estou com desejos – afirmou sorrindo. – Vamos comer Mushies.
Mushies?
– Sim, Mushies: um sanduíche maravilhoso de pão burger francês, cogumelos portobello defumados, blue cheese e rúcula. Você não lembra?
– Não foi o que comemos, faz tempo, no restaurante Low? Isso fica do outro lado da cidade.
– Isso mesmo. Naquela rua com as livrarias, com aqueles sebos todos.

Eduardo calou. Coçou a cabeça. Pensou, e lembrou da livraria. Lembrou também da pequena pilha de livros usados trazidos para casa, depois de uma noite de muito vinho e poucos sanduíches.

Quando Maristela voltou do telefonema ao delivery, o livro que estava junto ao porta-retratos havia sumido e a cor do Eduardo havia retornado.

Os Mushies estavam maravilhosos.

Foi durante a higiene do marido, antes de recolherem-se ao quarto, que Maristela, a esposa, jogou fora a nota fiscal que ela havia encontrado dentro do livro do Vinícius.

A mudança só voltou a ser irritante dois dias depois.

Vitor Bertini


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  • Esta é uma publicação de ficção. Todos os personagens e suas circunstâncias são ficcionais. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência;

  • Sexta-feira, dia 11, sexta de verdade, tem mais. Ou, a qualquer momento, em edição extraordinária.