Nina

#26 - Antônio e Margareth tiveram uma paixão avassaladora. Casaram em noventa dias

Olá.

Hoje é sexta-feira, o dia das expectativas. Dia de A História da Sexta.

Viva o poder das histórias! As vividas, as contadas, as escritas, as que mudaram o mundo, as que mudaram você e as que habitam suas expectativas e sonhos - fui.

Entre goles, páginas, amores e um bj, bom fim de semana.


NINA

Antônio e Margareth tiveram uma paixão avassaladora. Casaram em noventa dias.

Conheceram-se vasculhando uma cesta de promoções em uma livraria do centro da cidade. Trocaram sorrisos, disseram seus nomes, saíram para tomar um café, riram da confissão que há tempos não liam nada, sacaram seus telefones e marcaram outra conversa.

No segundo encontro falaram sobre a vida, anos sabáticos, desempregos e planos para o futuro. Decidiram ler alguma coisa juntos, voltaram à livraria, compraram livros de poesia e marcaram o primeiro jantar.

Escolheram o mesmo prato, Antônio pediu o vinho. Rindo, brindaram às livrarias, contaram as viagens que fizeram, os filmes que assistiram e capricharam nos olhares e no primeiro toque de mãos. 

Mais tarde, lendo versos de Vinícius em voz alta, seguiram bebendo vinho, agora no apartamento de Margareth.

Dois meses de leituras e noites de muito sexo, algumas lágrimas emocionadas, gargalhadas soltas e devaneios sobre um ano sem trabalho, e Antônio não teve dúvidas:

– Marga, você quer casar comigo?

A burocracia consumiu os outros trinta dias.

– Estamos nos conhecendo, enquanto usufruímos as vantagens de um casamento. O resto é medo, convenção social e conveniências. – Respondia Margareth, sempre que provocada sobre a velocidade dos acontecimentos conjugais. E concluía:
– Temos todo o tempo do mundo!

E foi assim, já casados, com cuidado, aos pouquinhos, que a vida pregressa, hábitos, histórias malucas e gostos menos explícitos de cada um foram sendo revelados ou descobertos. Antônio, particularmente, adorava os relatos das aventuras das amigas de Margareth.

Muito foi conversado sobre as respectivas famílias e suas idiossincrasias; sobre os amigos e suas aventuras; sobre os colegas de infância, escola e trabalho. Também pequenas manias ou cacoetes e até velhos romances, contados em momentos mais íntimos ou descuidados, terminaram por fazer parte da cultura, hábitos e eventuais desentendimentos.

Um ano depois do cartório, na data de aniversário do casamento, entusiasmados, tomaram a decisão de reunir, pela primeira vez, os principais amigos e a família - algo singelo, mas ecumênico. Todos os grupos deveriam estar representados.

– Capriche na sua lista. A minha já está pronta – falou Antônio.
– Estou terminando – respondeu Margareth, alcançando uma folha com nomes. – Fiz por grupos de afinidades, este aí é o das amigas.
– Ok – balbuciou o marido, enquanto passava os olhos na pequena relação. – Não vai convidar a tal Nina? Você conta tantas histórias desta louca – perguntou, curioso e algo desapontado.
– A Nina está viajando – respondeu Margareth, fingindo naturalidade, encerrando sua tarefa e passando outros nomes para o marido – ó, aí vai o resto.

Antônio ainda não estava preparado para saber a verdade sobre a louca da Nina, a amiga imaginária de Margareth.

Vitor Bertini


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