Noite Maior

#25 - Se o Santo era santo por conciliar, em Novo Oeste, como diziam, “o furo era mais embaixo”

Olá.

Prudência, serenidade (eram)
amigas, (agora)
palavras antigas

Hoje é sexta-feira - que elas possam fazer as pazes.

Entre um sorriso, um gesto, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


NOITE MAIOR

Em Novo Oeste existiam dois partidos políticos, duas igrejas, dois clubes sociais, duas rádios, três cemitérios, dois loucos, sempre duas opiniões irreconciliáveis, bailes notáveis e uma periférica praça pública com grama alta e um pedestal vazio. Além disso, alguns mistérios.

Os bailes notáveis aconteciam no Clube do Comércio e, com a vida a imitar a arte, desdobravam-se em três atos: os preparativos, o baile propriamente dito e o falatório pós-evento. O número de cenas e seus personagens variavam conforme a ocasião.

Corria o ano dos meus quinze anos, quando um vereador - de eleição inesperada e nome esquecido, preocupado com as divisões na sociedade de Novo Oeste propôs a construção de uma estátua em homenagem a São Francisco de Sales, padroeiro dos escritores e gentil conciliador, a ser colocada na recém inaugurada Praça do Povo.

Se o Santo era santo por conciliar, em Novo Oeste, como diziam, “o furo era mais embaixo”. Afinal, o Santo era católico, a cidade tinha duas igrejas - uma era protestante, e estátua não fala. Negociações e promessas feitas, obra aprovada, restou a polêmica da coincidência da data da inauguração com o tradicionalíssimo Baile de Debutantes - “A Noite Maior” das notas sociais. Não só o baile seria transmitido pelas rádios, e duas externas no mesmo dia não era tarefa simples, como traria dificuldades imensas às senhoras em conciliar roupas, salões de beleza e, mais importante, a concentração necessária para dois eventos deste porte. Mas, só para contrariar a tese do proponente da homenagem, a data foi mantida: 

– Aqui, ninguém é do contra - foi a frase definitiva do Presidente da Câmara Municipal.

Dias depois, enfrentados os preparativos, superada a inauguração do Santo e vivida a “Noite Maior”, restava o terceiro ato, o falatório.

Entretanto, na manhã seguinte ao baile, ainda no horário da distribuição do leite e do primeiro café servido no balcão da Cafeteria Central, o assunto era um só, e não era a festa: 

– Sumiram com a estátua!

Uma emergencial Comissão de Investigação e Diligências - CID, da Egrégia Câmara de Vereadores foi nomeada e, na primeira expedição externa, seguindo boatos, localizou o objeto para o qual havia sido constituída. Largado no leito do acostamento da única estrada vicinal que servia Novo Oeste, São Francisco de Sales, o Conciliador, ostentava, dependurado em seu peito, um cartaz ainda com cheiro de tinta fresca: “Fugi de Novo Oeste”.

Com o Santo de volta em seu pedestal, não demorou para que os assuntos do baile voltassem a ser o centro das conversas. Já a  CDI, exaurido seu propósito imediato, com a devida autorização e assinaturas da Mesa Diretora, providenciara o arquivamento de suas investigações.

Somente um ano depois, em meio a uma nova edição de “A Noite Maior”, é que a estátua da Praça do Povo, em forma de boato, voltou a ser assunto no Clube do Comércio.

– Presidente, como no ano passado, estão dizendo que a estátua do Santo sumiu. Agorinha.

Antes do término da recepção da festa com os pais - primeira etapa do cerimonial, uma discreta e ágil comissão de dois diretores do clube localizou a escultura. Estava no mesmo local do ano anterior, com outro cartaz: “Fugi de Novo”.

Um dos mistérios da cidade, até hoje, é onde foi parar, depois daquela noite, a estátua do São Francisco de Sales, o Conciliador.

Vitor Bertini


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