O Canto da Sereia

#60 – Doutor, o que atrapalha o progresso é a tortura da parede.

  
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Olá.

– Hoje é quinta.
– Não, hoje é sexta-feira, dia 17 de setembro do ano de 2021.
– Hoje, quando estou escrevendo, é quinta.
– Ontem, portanto.
– É, pode ser.

Entre um diálogo sem propósito, agenda cheia, frases e goles, um bj, boa leitura e bom fim de semana.


O CANTO DA SEREIA

No verão, Mário morava sozinho na cidade, pintava paredes, cometia versos e bebia; no inverno, morava na praia.

Na praia, pintava paredes, cometia versos, bebia e, à tardinha, fazia esculturas de areia à beira-mar.

– Doutor, o que atrasa o progresso é a tortura da parede – sentenciava com um olhar morno, sempre que precisava justificar um pedido de mais tinta ou uma mudança de data na entrega dos serviços. Quando a insinuação ou queixa envolvia a hipótese da bebida, Mário zombava, abusando da frase de Frida Kahlo:

– Eu nunca pinto sonhos ou pesadelos. Pinto a minha realidade.

Mário não lembrava quando havia começado a beber. Lembrava do pai: viúvo desde sempre, capataz de uma arrozeira, leitor voraz, exímio pescador de “caniço e rolha” e, todos os sagrados verões, veranista em alguma praia, em alguma casa de aluguel acessível e paredes descascadas. Lembrava também de sua prematura morte, assassinado com dois tiros em circunstâncias nunca esclarecidas, em um passeio noturno à beira da praia. Um dos tiros havia perfurado a sereia tatuada acima da enigmática frase “alguns sobrevivem”, no lado esquerdo do peito. 

No verão seguinte ao assassinato do pai, Mário ficou na cidade; no inverno, foi à praia. Em uma casa de aluguel acessível, em uma mesa velha, ele instalou uma máquina de escrever e começou, alternadamente, a fazer versos e pintar paredes. Foi na solidão das caminhadas vespertinas que fez a primeira escultura de areia; só para encontrar-lá destruída no outro dia pela manhã. 

A alternância das estações, a inconstância do estilo dos versos e as infinitas paredes - “cada uma é diferente da outra”, contrastavam com a rotina das esculturas: a areia moldada era sempre a de uma sereia de olhos fechados que seria destruída, pela ação do mar e dos ventos, antes do alvorecer. Na manhã seguinte, depois de confirmar a destruição de sua obra, ao contrário de Frida, acompanhado de versos com seus sonhos e pesadelos, ia para o bar.

Esta rotina durou o tempo do cansaço das memórias de Mário. Seguiu até a manhã em que sua vista viu o que a cabeça, ainda zonza da noite, custava a crer: a sereia esculpida na véspera não fora destruída, estava intacta, de olhos abertos e parecia cantar.

Espantado, Mário voltou para casa. Rejeitou a máquina de escrever, deitou, dormiu e sonhou com o pai. No sonho, o capataz da arrozeira, sorrindo, apontando a frase tatuada em seu peito, repetia indefinidamente: “alguns sobrevivem, alguns sobrevivem”.

O verão seguinte encontrou Mário morando na praia - fazendo versos, pintando quadros e bebendo. Mário sobreviveu.

Vitor Bertini

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  • Você conhece alguma sereia? Todas são ficção;

  • Este texto foi distribuído, originalmente, em 12 de fevereiro deste ano;

  • Sexta, dia 24, tem mais;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.


O email já estava pronto. Cansado, resolvi ler um pouco. Sorri. Voltei:

Quando os personagens de “A Falecida” disseram suas primeiras falas no palco do Teatro Municipal, no dia 8 de junho de 1953, a platéia levou um susto. Jogando uma sinuca invisível, os personagens se referiam a Carlyle, atacante do Fluminense, Pavão, beque do Flamengo, e Ademir, craque do Vasco, jogadores então em atividade - futebol ao Municipal! A peça tratava de uma sofrida mulher do subúrbio carioca, a tuberculosa Zulmira, cuja única ambição na vida era um enterro de luxo. Seu marido Tuninho, tricolor fanático, só pensava em futebol. Se pudesse, apostaria no Fluminense contra duzentas mil pessoas no Maracanã, dando dois gols de vantagem. Zulmira, pouco antes de morrer, mandou Tuninho procurar o milionário Pimentel. Ele pagaria o enterro de luxo. Zulmira morreu, Tuninho foi ao milionário e descobriu que ele era amante de Zulmira. Tomou-lhe o dinheiro, deu a Zulmira um enterro de cachorro e partiu eufórico para apostar contra o Maracanã lotado.

O Anjo Pornográfico - A vida de Nelson Rodrigues, Ruy Castro, Companhia das Letras.

Preço: menos do que uma pizza média.