O Jardim das Beatas

#46 Sendo estranhas, devemos dar-lhes as boas vindas.

Olá.

Hoje é sexta-feira, 11 de junho de 2021 e estamos vivos. Não é bacana?

Entre um espanto, poucas palavras, muitos livros, goles e bjs, boa leitura e bom fim de semana.


O JARDIM DAS BEATAS

Dr. Wilhelm era catedrático de filosofia do direito, usava ternos de corte inglês, lia Kelsen em alemão, gostava de palestrar e, sempre que possível, falava de estranhamentos. Tudo isto já foi dito.

Também já foi dito que era o Paulão, seu motorista, quem era chamado para contar as histórias de espanto, as estranhas histórias que, brincava o professor com as citações de Hamlet, "sendo estranhas, devemos dar-lhes as boas vindas”.

O que ainda não foi dito é que mais do que ilustrar as rodas de conversas do chefe, o que Paulão gostava de verdade era quando ele conseguia recolher alguma história que o doutor, sorrindo, dissesse que ia incluir no repertório.

As beatas da Paróquia de São Benedito andam sempre juntas e falam mais quando Padre Pedro não está presente. Quando concordam entre si, fala uma de cada vez. Quando discordam, falam todas ao mesmo tempo.

Quis o destino que Paulão, na volta de uma expedição à livraria preferida do Dr. Wilhelm, terminasse caminhando atrás das beatas - sem o Padre e discordando entre si.

– Acho que não devemos misturar as coisas: política é política, religião é religião.
– Penso que não se trata de política, é simples evolução. Evolução da sociedade.
– Involução! Involução fantasiada de virtude! Hipócritas, isso sim.
– Inocentes, não aprenderam nada com a história.
O tempora, o mores!

Depois de dois quarteirões de falas sobrepostas, no apontar de um dedo indicador, o grupo, agora em silêncio, parou. Curioso, Paulão também parou.

Pararam todos na frente do jardim que Júlio, o jardineiro do bairro - agora exausto e apoiado no portão entreaberto, acabara de replantar, regar e varrer.

Entre olhares e suspiros, falando uma de cada vez, as opiniões foram unânimes:

– Que maravilha! Que lindo! Como Deus faz coisas belas!

Sem importar-se com o olhar cansado do jardineiro, a primeira beata não parou de evangelizar:

– O senhor não concorda que Deus faz coisas extraordinárias? Veja! – Perguntou, novamente com o dedo apontado e com todas as outras sacudindo a cabeça em concordância.
– Acho que as senhoras têm razão, Deus faz coisas maravilhosas. Mas, as senhoras precisavam ver como estava isto aqui quando Ele estava cuidando sozinho.

As beatas, em passos miúdos, retomaram sua caminhada em direção à Paróquia de São Benedito. Precisavam, mais do que nunca, ter com Padre Pedro.

Paulão saiu quase correndo. Precisava contar para seu chefe a história que acabara de testemunhar. Tinha certeza que ela entraria para o repertório.

Vitor Bertini


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– Ôba!

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  • Por aqui, tudo é ficção. Lá fora, sei não;

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