Onde o sol se põe

#73 Sorriso mesmo, só vendendo passagens.

  
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Olá.

Um dia, no futuro, quando eu for Imperador das Galáxias, será proibido trabalhar em dezembro. Dedicaremos os últimos trinta e um dias do ano a abraçar os amigos, comemorar as coisas boas e fazer planos. Muitos planos. Nenhuma queixa.

Entre viagens no tempo, histórias de sexta, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.


ONDE O SOL SE PÕE

Novo Oeste é minha cidade natal. Novo Oeste fica a oeste de algum lugar, é quente o tempo todo e tinha o melhor muro do mundo para sentar em cima, pensar na vida e comer bergamotas.

Eu não sabia onde ficava o oeste, pouco sabia da vida, mas sabia muito bem onde ficava aquele muro alto, largo e que, à tardinha, recebia uma sombra perfeita. Sentado ali eu via tudo: a prefeitura, a igreja, o clube, a delegacia e, espichando um pouco o pescoço, a rodoviária e a bergamoteira.

Certo fim de tarde, inclinando o corpo para apanhar a mais amarela das bergamotas, vi Iracyna fechando a rodoviária. Sempre de jeans, sapato baixo e blusa preta, Iracyna, gerente da rodoviária, era uma mulher discreta e de olhar severo. Sorriso mesmo, só vendendo passagens.

Foi assim, na rua já deserta, no horário do sol vermelho, empoleirado no muro com uma bergamota na mão, que vi Iracyna se aproximar acompanhando uma moça que, tudo indicava, acabara de chegar à cidade.

– Para que lado será que fica o oeste? – perguntou a visitante levantando o cabelo e insinuando a nuca.

Iracyna parou, acarinhou o rosto da forasteira, encostou-a no muro, deu-lhe um beijo na boca e, colocando a mão por baixo de sua blusa, afirmou:

– O oeste é onde o sol se põe e para onde corre minha mão.

Nunca mais esqueci onde fica o oeste.

Vitor Bertini


Lembre-se, é dezembro. Tempo de compartilhar:

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  • Você conhece Novo Oeste? – É outra cidade. Esta, eu inventei;

  • Sexta, dia 24 de dezembro, dia dos presentes, tem mais;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.


FATIAS DE LIVRO

Heinrich von Kleist (1777-1811) foi um escritor alemão que, entre planos de vida e pactos suicidas, escreveu esta pequena maravilha:

Em Santiago, a capital do reino do Chile, no exato momento do grande terremoto de 1647 em que muitos milhares de vidas se perderam, um jovem espanhol chamado Jeronimo Rugera, que havia sido preso sob uma acusação criminal, estava de pé contra um pilar da prisão, prestes a se enforcar.

O Terremoto no Chile, Antígona, 1985


A ilustração que segue é do artista Alexandre Flores Torrano e está na capa do melhor presente - bom, bonito e barato, para este Natal: o livro Não me abandone, do locutor que vos fala.
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