Os Olhos de Noé

#62 Noé ficou sentado no pátio - sozinho, distinguindo sombras.

  
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Olá.

Hoje é sexta-feira, e isto basta.

Entre olhares, textos novos, livros e goles, um bj, boa leitura e bom fim de semana.


OS OLHOS DE NOÉ

Noé nasceu, – distraído este menino, sem sustentar o olhar da mãe. Na ignorância de todos, cresceu enxergando pouco. Nas rezas e promessas das velhas, foi sendo criado em casa.

Terceiro filho de uma família pobre, Noé moldou o mundo às suas vistas embaçadas, virou menino forte e não sabia o que era reclamar.

Cuidava do pátio, dos cachorros e da casa. Conhecia os caminhos da rua e aprendeu a comprar pão. Reconhecia as pessoas pelo vulto e as notas de dinheiro contra a luz. Ouvia música, os gritos da sua mãe e a voz doce de Maria Rita.

Sua vizinha desde sempre, a criança Maria Rita tinha medo dos cachorros. 

– Venha, não tenha medo. Prendo eles.
– Primeiro você prende, depois eu vou.

Cães presos, ela pulava a cerca e vinha correndo. Subia nas árvores, comia bergamotas descascadas pelo amigo e, pelo menos uma vez, perguntou se era verdade que ele não enxergava direito.

Um dia, Maria Rita foi para o colégio e Noé ficou sentado no pátio - sozinho, distinguindo sombras.

Sua vizinha, agora, era só a voz que, de tempos em tempos, abanava da janela:

– Bom dia, Noé.
– Bom dia, Maria Rita.

Tempo depois, a morte de um dos cães trouxe Rita de volta.

– Mamãe falou que o Branco morreu.
– É verdade – respondeu Noé, olhando como se visse os detalhes de sua amiga e apontando para o lado do banco de madeira. – Você quer sentar?
– Obrigada – disse, sentando. – Me deu um remorso. Eu fazia você prendê-los.
– Não liga. Agora mesmo o Preto está preso – devolveu, sorrindo.
– Você está bem?
– Sim, bem. Com saudades da sua voz por aqui.
– Pois é. Ainda mais agora, que comecei a trabalhar – suspirou a visita, fazendo uma pausa.

Noé calou. A vida lhe ensinara muitas coisas. Entre elas, traduzir respirações.

– Estou trabalhando de auxiliar de limpeza na biblioteca da escola – prosseguiu Maria Rita. – Não pagam muito, mas, sabe, eu posso retirar os livros que quiser. 

A seguir, desviando o olhar e falando baixinho, concluiu:

– Sempre lembro de você quando vejo alguma coleção com imagens bonitas.

Antes do tempo de um constrangimento, Noé voltou à conversa:

– Será que tem algum livro sobre catedrais? – Perguntou.
– Catedrais? Acho que deve ter, sim.
– Eu gostaria de saber se são parecidas com as dos meus sonhos.
– Se eu achar, posso vir ler suas histórias e descrições pra você. Você quer?
– Eu faço o café.

Anos mais tarde, quando a moça de branco veio trazer a notícia de que tinha corrido tudo bem no parto, que a criança era um menino e que Maria Rita estava feliz, Noé lembrou da sua vida:

– Ele é distraído?
– Nada, super atento, não tira os olhos da mãe.

Chorando de olhos fechados, Noé entrou em sua catedral imaginária. Só queria rezar e agradecer.

Vitor Bertini

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  • Aqui, Noé é ficção. Maria Rita também;

  • Terminaram, de verdade, os replays setembrinos;

  • Sexta, dia 8 de outubro, tem mais;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.


FATIAS DE LIVRO

Gostei:

Estudantes paulistas que vão para uma universidade em Carolina do Norte, debruçam-se felizes à amurada do barco e fazem sinais para a terra. No convés inferior os rapazes do Botafogo F. C. berram aleguás tropicais para os torcedores, que lá debaixo lhes respondem com vivas e bandeiras.

…..

– O senhor é da missão do Botafogo?

Respondo-lhe que não. O desconhecido faz meia volta e sai a correr, gritando. “Nariz! Onde está o Nariz?” E eu fico, com a doce melancolia de não pertencer a nenhuma das missões que se encontram no vapor. Nem estudante paulista, nem jogador de futebol.

– Érico Veríssimo, Gato Preto em Campo de Neve, Editora Globo, 22ª edição, 1996.

Preço no sebo: menos do que uma fatia de pizza.