Palco

#77 Do uniforme, Júlia adora a saia.

  
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iCloud, sexta-feira, 14 de janeiro de 2022.

Olá.

“Primeiro, o Arnaldo deveria informar-se sobre a rosa-do-deserto. Só depois, mudar-se para a praia.”

Este foi o curioso e-mail que recebi - não conheço nenhum Arnaldo, não tinha a menor noção do que pudesse ser uma rosa-do-deserto e moro nas nuvens, não na praia.

Decidi fazer uma pesquisa. E um texto. 

“A rosa-do-deserto, também conhecida por adenium, é uma flor que vem conquistando cada vez mais admiradores por sua beleza impressionante. Deve ser cultivada em ambiente iluminado e necessita bastante água.”

O texto eu ainda não fiz.

Entre flores, textos, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.


PALCO

Júlia pula, corre e rodopia.

– Esta menina não se entrega.
– Filha, agora para.

Júlia ouve e não sossega. 

– Mãe? Não enxerga.
– Minha filha, hora da cama!

Júlia acorda, sorri, pula, corre e rodopia.

– Mostra os desenhos, vai que acalma.
– Filha, olha que lindos!

Júlia olha, diz que sim - e não para.

– Na escola vai acalmar-se.
– Tomara!

Do uniforme, Júlia adora a saia.

– Moleca, dá um abraço, vem.

Júlia abre os braços, corre e se deixa abraçar. Elevada por mãos fortes, na entrada da sala de aula, sente a vida rodar.

– Você vai gostar.

Crianças. Crianças:

– Quem é a Juju-Corre-e-Gira? Quem seria? Quem seria?

Júlia não senta. Não consegue acompanhar.

– Chamaram no colégio, querem falar.

O Conselho de Classe foi unânime:

– Procure ajuda.
– Vou procurar. Talvez eu não quisesse enxergar.

Fim da consulta. Na sala de espera, Júlia sorri e foge da rima. 

– O que ela tem doutor? O que não enxerguei na minha menina?
– Nada grave. Ela é bailarina.

Vitor Bertini


DIÁLOGOS DE ELEVADOR

– Você tem compartilhado alguma coisa?
– Angústias, eu acho.
– Experimenta com a história da Júlia. Vai que ajuda alguém.

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  • O texto de hoje é uma ficção inspirada na vida da bailarina e coreógrafa inglesa (Cats e Fantasma da Ópera), Gillian Lynne;

  • A História da Sexta é um hebdomadário1;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí. Sério.


TAKE A PEEK

– Ah! Léon!… Realmente… não sei… se deva!…
Fez um trejeito. Depois, com ar sério:
– Isto é uma grande inconveniência, sabe?
– Por quê? – Replicou o escrevente. – Isto se faz em Paris.
E estas palavras, como argumento irresistível, decidiram-na imediatamente.

Madame Bovary, Gustave Flaubert, Editora Abril, 1971

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adjetivo
relativo a semana, que se renova a cada semana; semanal.