Pelo Correio

A História da Sexta #17

Olá.

Há muito tempo atrás, em uma entrevista, o grande Érico Veríssimo respondeu:

– Olha, sou um ficcionista. Posso escrever o que quiser, sem preocupações com verdades científicas.

Achei uma maravilha! 

Também ando ficcionista, e não tenho vontade de dizer nada que precise provar, defender, debater, etc… Aliás, como sabemos, é sexta. Estou cansado e só quero contar uma história.

Entre uma página, um gole, um selo e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


PELO CORREIO

Lia Pintor era uma mulher honrada. Esconder aquelas fotos havia sido uma reação instintiva e, aparentemente, despropositada.

Desde que fechara seu consultório - “o tal ano sabático”, nas palavras contrariadas de seu marito Romeo, sua rotina nas terças-feiras era singela: desjejum em casa, academia, feira, pastel na feira, café em casa e depois, como nos outros dias, o que a alma determinasse.

– O barato da vida é o improviso – respondia, bem-humorada, sempre que alguém perguntava o que, afinal, andava fazendo.

O improviso daquela terça veio em meio à monótona abertura da correspondência, enquanto tomava seu café vespertino, na cozinha do apartamento. Em um envelope pardo, sem remetente, endereçado à Dra. Lia, três fotos suas. Três fotos em preto e branco. Só três fotos, nada mais.

O impulso para sumir com aquilo foi instantâneo: em segundos o envelope dormia entre receitas da culinária baiana. Em minutos, o apartamento já tinha sido percorrido em vão e o rosto, ainda pálido, lavado mais de uma vez.

Somente depois, novamente sentada na cozinha, com as demais correspondências ainda intocadas e o café frio, é que a destinatária se deu conta que mal havia passado os olhos nas fotos e no tal envelope. Mais, não tinha razões para ficar nervosa. “Definitivamente não tem porquê”, pensou, quase  sorrindo. 

Levantou, decidiu fazer um novo café e, enquanto a água esquentava, resgatou as perturbadoras fotos. 

O envelope havia sido postado na sexta-feira anterior, na Agência Central dos Correios, endereçado com uma etiqueta e fechado com cola suficiente para transformar em sólida sua parte superior. As fotos obedeciam um padrão: todas flagravam Lia em passeios casuais, em diferentes bairros da cidade e em dias variados - as roupas mostravam isso. 

Terminado o exame pouco revelador, Lia escolheu a poltrona com vista para o parque como próximo destino - seu local preferido de ócio e leituras. Levava a caneca com café quente e, traindo suas preocupações, o envelope rasgado e as fotografias. Ali, com o horizonte como conselheiro, pensando em círculos, Lia lembrou do falecido pai e seu conselho para casos confusos: “recuar para reorganizar a tropa”.

No ensinamento do pai, o envelope voltou para a companhia das receitas baianas e Lia decidiu ficar em casa por uns dias. Sem improvisos.

Na reorganização da tropa, a decisão do silêncio. O marito Romeo, sempre desconfiado, iria enlouquecê-la; as amigas não parariam de ligar e falar; e as colegas psicólogas, tão assustadas como ela, formulariam teses em excesso. Nem com a polícia - em quem de resto não confiava, parecia valer a pena falar.

– Ôpa, surpresa! Você em casa? – Saudou Romeo, largando os jornais sobre o aparador e vindo beijar a esposa.
– Pois é… vim tomar café, comecei a ler as tais “histórias da sexta” e fui ficando.
– Maravilha! Pedimos um japonês?
– Só se você abrir um vinho. Estou precisando.
– De vinho?
– De vinho e de um banho – concluiu Lia, rumando para a suíte do casal.

Por seis dias consecutivos, recolhida, quieta e pensativa, Lia acrescentara às tradicionais opções de lazer e trabalho de quem fica em casa, a obsessiva rotina de buscar a correspondência. Habilidosa para encobrir a situação, as conversas com as amigas tratavam de amenidades; com as colegas, desafiando seu ano sabático, conjeturava alguma supervisão; e as conversas com Romeo - cada dia mais bem humorado e chegando mais cedo, andavam normais.

– Seu Ernesto, a correspondência já chegou?
– Não, dona Lia. Mas pode ficar tranquila, seu Romeo já recomendou a gente. Deve ser importante, pode ficar tranquila.

Mais tarde, após o jantar, preparando-se para ir dormir, Lia observa seu marito Romeo colocar creme dental na escova de dentes, e tem um insight.

– Amor, nunca havia reparado, você sempre cobre assim a escova com pasta de dentes? De ponta à ponta?
– Claro. Nenhum extremidade, nenhum cerda a descoberto! – respondeu o marido, com as dificuldades de uma boca cheia de espuma.
– Como você faria se fosse passar cola para fechar um envelope? Sabe, desses pardos e de tamanho médio?

Romeo corou e calou. Lia nada mais perguntou.

No dia seguinte, terça-feira, voltando do almoço, Romeo recebeu de sua secretária um bilhete sugerindo uma conversa com a Dra. Lúcia, colega de Lia, para a próxima quinta-feira, 14:00, no consultório dela - endereço anotado no verso.

– Pode pôr na agenda – falou o chefe, resignado, fingindo normalidade.

Naquele momento, na feira, Dra. Lia comia um pastel.

Vitor Bertini

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