Picolé

#28 O dono da peruca e do colarinho ouviu o sol. Não ouviu o que gritavam...

Olá.

Jorge Ben, o músico e ex-jogador de futebol, em um improviso genial, criou o refrão “Alô, Alô! W Brasil”.  Antes, poeta certeiro, havia escrito que morava em um pais tropical e que em fevereiro tinha carnaval. Este ano não vai ter carnaval.

Estranhos tempos, estranho fevereiro, estranha sexta-feira.

Entre um estranhamento, uma página, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


PICOLÉ

Fim de tarde, vento e sol às costas, mar à frente, e eu ali, sentado na areia, no alto de uma duna, tirando o cabelo dos olhos e pensando na vida - como se não tivesse uma história para escrever.

Entretanto, foi assim, sentado, pensando na vida, ouvindo o barulho do mar e do vento, que pude assistir, ninguém me contou, a história de hoje.

Como disse, era fim de tarde: aquele horário em que o sol já perdoa a pele mas ainda ajuda a vista. Horário, fiquei sabendo depois, de um tradicional futebol entre veranistas bem conceituados.

Os participantes - atletas seria um exagero, iam chegando em lustrosos automóveis e faziam, reciprocamente, efusivas saudações. Todos abraçavam todos. Dividiram os times por algum misterioso critério e, uniformizados, foram à luta - ao jogo, com uma seriedade digna de espanto.

De minha parte, do alto da minha duna, a coisa mais notável ao longo dos primeiros vinte minutos, além de algumas ameaças de briga, foi a aproximação, olhos fixos no jogo, do vendedor de sorvetes, vestido de palhaço. Estacionou seu carrinho, tirou a peruca e o colarinho, deu-se ao luxo de um picolé e virou assistência.

O jogo, com regras muito assemelhadas com as do futebol, diferenciava-se deste, até onde pude perceber, pela ausência total da lei do impedimento e pelo fato que, na falta de um juiz, todas as decisões eram tomadas, literalmente, no grito.

A normalidade das ações vai até o momento da lesão de quem parecia ser o craque do time da maior autoridade em campo - sua palavra até então não havia sido contestada, ou dono da bola. Ali, começou meu interesse. 

Lesão constatada - dois aparentes médicos acorreram, jogo parado, falta gritada e aceita, bola sob o braço da autoridade que, ansioso, dita a nova regra:

– O jogo não recomeça com um a menos!

Diante da absurda opção sentada em uma duna, restava o palhaço.

– Ô Picolé! Você joga?

Dez minutos em campo, segundo contra-ataque do time adversário e a segunda falta de cobertura ao seu avanço, o novo participante não se fez de rogado. Diante da perplexidade de todos, abriu os braços em direção a quem o havia convidado e gritou:

– Ô Doconvite! Dá pra correr? Vai cobrir minhas subidas ou não?

O silêncio só foi quebrado pela ofegante resposta, acompanhada de uma sacudida cabeça baixa:

– Certo! Cubro nas próximas! 

Mais tarde, quando o sol e os gritos decidiram que a prorrogação teria apenas alguns minutos, o jogo estava empatado e a bola estava com Picolé.

O dono da peruca e do colarinho ouviu o sol, não ouviu o que gritavam, não passou pra ninguém, não largou a bola, driblou tantos adversários quantos apareceram e, sorrindo, estufou as redes adversárias.

Correram todos para abraçar Picolé. Fim do jogo.

Enquanto os carros lustrosos faziam barulho ao ir embora e o carrinho de sorvetes começava a sair da areia que se acumulara em suas rodas, desci da duna e vim escrever esta história.

Vitor Bertini


Lembrou de alguém?

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