Profeflor

A História da Sexta #20

Olá.

Hoje é sexta e minha proposta terapêutica é: faça planos. Muitos planos. A próxima viagem, o próximo jantar, o próximo filho, filha, adotar alguma coisa, fazer caridade. Faça planos.

Faça planos de curto, médio, longo e sem prazos. Se não quiser fazer planos, faça histórias, faça sexo. Conte histórias, lembre o passado, sonhe com o futuro. Respire. Sonhe. Sonhe muito.

Na preguiça, lembre Mário Quintana: “O vírus passará, eu passarinho.”

Entre um desabafo, uma página, um gole e um bj, boa leitura e bom fim de semana.


PROFEFLOR

“Camélia caiu do galho. Não morreu.”

Este texto, escrito com letra caprichada no centro do quadro-negro da sala 42, alterou a coreografia da volta do intervalo dos alunos da difícil turma do terceiro ano do ensino médio, do Colégio St. Ignatius. Entre paradas em frente ao quadro, risos, trocas de olhares, perguntas sem respostas e retiradas de fones dos ouvidos, todos sentaram e fizeram silêncio.

Camélia Anke, a sensível professora de Português e Literatura, a Profeflor - na zombeteira voz dos corredores, chegou dizendo bom dia, largou seu material, caminhou até o meio da sala, voltou-se para o texto escrito, respirou por dez segundos e, séria, retornou para a frente da turma.

– Muito bem, quem foi o valente?

Diante do constrangedor silêncio e antes que os celulares pudessem assumir o papel de rota de fuga, continuou:

– É uma pena que não consigamos identificar nosso autor – lamentou, começando a sorrir. – Reza a lenda que o escritor americano Ernest Hemingway, Nobel de Literatura em 1954, ganhou um belo dinheiro de seus colegas de profissão apostando na possibilidade de contar uma história completa usando apenas seis palavras: “Vendem-se sapatos de bebê. Nunca usados.”

A seguir, encerrou o episódio:

– Tivesse assumido a valentia, o autor da nossa história em seis palavras, pelo talento, seria liberado do trabalho do mês e teria nota dez. Apesar da provocação!

Na quarta-feira, dia da segunda das três aulas semanais de Português e Literatura, quando Hemingway e todo aquela conversa sobre histórias curtas pareciam ter sumido no abismo das redes sociais, a volta do intervalo confirmou, em letras de forma, a irreverência de alguns:

“Trabalho chato, solicito ponto. Ainda vale?
- Orlando Garcia da Silva.”

Diferente da segunda-feira, a professora Camélia não precisou mais tempo do que o necessário para ir do “bom dia” na porta da sala até sua mesa de trabalho, para se manifestar: 

– Senhor Orlando. Sua nota é dez e o senhor está dispensado de apresentar o chato trabalho deste mês. Parabéns!

Os gritos e aplausos vindos da sala 42 foram o assunto do colégio naquele dia. No dia seguinte, o assunto foi a redação de histórias.

Na sexta-feira, última aula de Português e Literatura da semana, os alunos do terceiro ano não saíram para o intervalo: foram copiadas, no quadro-negro, tantas histórias de seis palavras quanto o número de alunos na lista de chamada, menos um.

Sorrindo, a professora chegou. Disse o tradicional “bom dia” e, ainda sorrindo, sem nenhuma distração, pediu que cada aluno levantasse e lesse a sua história.

Concluídas as leituras, um silêncio cheio de expectativas tomou conta da sala. Também em silêncio, a professora foi até o quadro, apagou todas as histórias e escreveu sua decisão: “Esqueçam o trabalho. Dez para todos.”

No tumulto que se instalara, uma pergunta gritada trouxe, de novo, algum silêncio:

– Professora, ainda falta descobrir o autor do primeiro texto!

Novamente séria, a professora olhou para todos, voltou para o quadro e apagou sua decisão. Juntou um pedaço de giz que caíra no chão e, com letra caprichada, escreveu: “Camélia voltou pro galho. Fui eu.”

Naquele fim de semestre, Camélia Anke, a Profeflor, foi a paraninfa da difícil turma do terceiro ano do Colégio St. Ignatius.

Vitor Bertini


Da série “compartilhar é quase amor”:

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