Sons da floresta

#72 Como se nossos pios, mugidos, arrulhos ou cantos pudessem ser prejudiciais ao nosso conviver.

  
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Olá.

Por agenda ocupada, preocupação e dever, o texto Os sons da floresta - sempre os mesmos e sempre diferentes, volta ao nosso convívio, e canta seu ofício.

Entre pássaros e páginas, goles e beijos, boa leitura e bom fim de semana.


SONS DA FLORESTA

O comunicado era oficial.

O Conselho das Corujas, nos termos do Estatuto das Matas, convoca todos as criaturas desta floresta para a Assembléia Geral Extraordinária a ser realizada ainda hoje, ao pôr do sol, na Clareira do Lago.

– Qual é a pauta? – repetiam quase todas as vozes, em forma de pergunta.
– Melhor não faltar! Melhor não faltar! – Taramelavam os papagaios, emissários do Conselho, voando em bandos e espalhando ansiedade e suspense.

Os boatos sobre os motivos da convocação só não foram mais numerosos por falta de tempo. Falava-se de um novo recenseamento na floresta, na votação de um novo fundo eleitoral,  na possível explicação sobre o desaparecimento global das abelhas e até na formação de um Superior Tribunal da Floresta, uma espécie de STF regular, há muito demandado.

– Corujas não se reúnem por pouca coisa – rugiram os leões, seguros de si. 
– Vamos comparecer em paz – garantiram as leoas, respondendo aos olhares desconfiados das zebras.
– Iremos aos pulos – completaram os improváveis cangurus, certos de que viviam em uma floresta inclusiva.

Na hora do sol vermelho, com todos os bichos presentes e guardando silêncio, a coruja mais velha, Presidente do Conselho, tomou a palavra:

– Muito obrigado, pela presença de todos. Serei breve. Nos últimos dias o Conselho recebeu, preocupado, notícias dando conta de supostas proibições da emissão de alguns sons de nossa floresta, por parte de supostas autoridades. Como se nossos pios, mugidos, arrulhos ou cantos pudessem, de alguma forma, ser prejudiciais ao nosso conviver. Não sabemos se são verdadeiras as notícias, mas sabemos que são falsas estas autoridades – e concluiu, séria, de olhos arregalados: – aqui, falsos corvos não crocitarão. Aqui, livre falar, é falar com a voz que cada um tem. Salve a multiplicidade de sons da floresta!

Os urras e vivas só foram interrompidos quando a coruja Secretária Geral piou, pedindo mais um minuto de atenção:

– Só um lembrete. Nesta mata também se pode ir e vir, livremente. Nossa floresta não tem donos! 

Diante de novo tumulto, as abelhas, que não tinham sido avisadas de seu próprio desaparecimento, preocupadas com o tempo de floração, saíram às pressas para fazer mel - e zunir como quisessem.

Vitor Bertini

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Abaixo, dois dos comentários que recebi sobre a pena da semana passada. Gostei:

Que lindo e emocionante relato. De minha sacada, vejo, todos os dias, uma revoada de pássaros que vêm comer a comida diária que ponho para eles. Esse momento é meu e deles, onde eu encontro a paz, observando-os. Esperarei, ansiosa, a próxima sexta, uma nova história. Abraços!

Pássaros são bons companheiros.
Há um que me acompanha sempre e gosta de pousar em galhos logo acima do meu carro.
Abraço!


  • Você conhece esta floresta? – É outra. Nesta, as corujas falam;

  • Sexta, dia 17 de dezembro, tem mais;

  • Mensagem na garrafa: você que chegou até aqui por curiosidade, gosto ou preguiça, ajude o autor clicando em qualquer botão vermelho perdido por aí.


FATIAS DE LIVRO

Algumas das passagens mais célebres da literatura são aquelas cujas cadências nos impressionam de maneiras que reforçam e finalmente transcendem seus conteúdos. As frases nos afetam mais ou menos como a música, de uma maneira que não pode ser explicada. O ritmo dá às palavras um poder que não pode ser reduzido a, ou descrito por, meras palavras.

Para ler como um escritor, Francine Prose, Zahar, 2008

Se escrevo, muito devo às aulas de música, lá no Colégio Concórdia, nos tempos do Peteca, quando, obrigado, repetia ritmado: pê-rá, pê-sse-gô; pê-rá, pê-sse-gô. Agora, bem mais tarde, no teclado, não sou obrigado, mas, todavia, contudo, ainda repito, sempre ritmado: pê-rá, pê-sse-gô; pê-rá, pê-sse-gô. Nunca esqueci.
Vitor Bertini - 4º série ginasial, turma C, número 36.